ISD forma primeira residente de origem quilombola na Residência Multiprofissional no Cuidado à Saúde da Pessoa com Deficiência

Publicado em 23 de janeiro de 2026

A história da escravidão no Brasil não é um passado distante. Ela atravessa gerações e ainda molda trajetórias no presente. No caso da assistente social Erika Santos, 36 anos, esse passado está há apenas duas gerações. Descendente de pessoas escravizadas que fundaram a Comunidade Quilombola de Capoeiras, em Macaíba/RN, Erika acaba de se tornar a primeira residente de origem quilombola formada pela Residência Multiprofissional no Cuidado à Saúde da Pessoa com Deficiência do Instituto Santos Dumont (ISD).

A profissional não esconde o orgulho de ter vivido parte da infância e de manter vínculo com o quilombo, do qual seus bisavós foram um dos primeiros moradores. É em Capoeiras que estão as suas raízes e onde vive parte de sua família até hoje. “Tenho tios que ainda moram em Capoeiras e sou casada com uma pessoa quilombola, que também é de Capoeiras. Tenho muito orgulho da minha origem e de pertencer à minha comunidade”, conta.

A identidade e a vivência de Erika foram essenciais para a construção de um olhar clínico e científico durante o período em que integrou a Residência Multiprofissional no Cuidado à Saúde da Pessoa com Deficiência, programa de pós-graduação do Instituto Santos Dumont (ISD). A conexão entre formação acadêmica e origem territorial se materializou no Trabalho de Conclusão de Residência (TCR), defendido e aprovado em banca realizada no fim de 2025. Intitulado “Perfil socioeconômico da pessoa com deficiência visual em um Centro Especializado em Reabilitação”, o estudo analisa dados sociais, econômicos e demográficos de usuários atendidos no ISD, com um recorte específico para moradores de Capoeiras.

“A análise do público atendido pelo CER ISD mostrou que as pessoas de Capoeiras apresentam maiores vulnerabilidades socioeconômicas. Em média, elas têm renda mais baixa, menor escolaridade e maior dificuldade de acesso a serviços públicos básicos, sobretudo as mulheres que, para ajudar na renda familiar, acabam deixando de estudar para trabalhar desde cedo em empregos informais”, analisa.

Erika Santos durante a defesa do Trabalho de Conclusão de Residência – Foto: Ascom/ISD

Esse perfil social gera inúmeras consequências, entre elas a descoberta tardia de doenças. Recentemente, uma força-tarefa montada pela equipe multiprofissional da linha de cuidado em Reabilitação da Pessoa com Deficiência Visual (Rever) do ISD constatou uma alta prevalência de casos de retinose pigmentar em moradores de Capoeiras. A doença hereditária atinge a retina e compromete a formação da imagem visual, causando a perda progressiva da visão. Em Capoeiras, de 43 pessoas triadas, 10 foram diagnosticadas com retinose pigmentar e estão sendo acompanhadas pelo Instituto.

Erika integrou a equipe multiprofissional responsável pela coleta de dados e pelas oficinas informativas sobre a retinose pigmentar. Ela acredita que a presença de uma profissional familiar aos moradores de Capoeiras foi fundamental para a transmissão das informações e para o engajamento coletivo nas atividades. “Eles se sentiram representados”, resume.

Equipe multiprofissional do ISD durante ação de conscientização sobre doenças oculares em Capoeiras – Foto: Ascom/ISD

Em novembro do ano passado, Erika representou o ISD durante uma atividade alusiva ao Dia da Consciência Negra, realizada com moradores do quilombo. A ação foi simbólica e marcou o fortalecimento de um vínculo entre a profissional, o Instituto e a comunidade.

Residência no ISD: do sonho à realidade

O primeiro contato de Erika com o ISD aconteceu quando ela viajava para visitar a família em Capoeiras. Coincidentemente, o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi (Anita) está localizado às margens da RN-160, rodovia que liga Macaíba à comunidade quilombola. Erika lembra que o Anita sempre chamava a sua atenção, embora ainda não conhecesse com propriedade o trabalho de assistência materno-infantil e à pessoa com deficiência desenvolvido pela unidade.

“Uma amiga me contou sobre uma vaga aberta para trabalhar como recepcionista no Anita. Enviei meu currículo e fui contratada. Foi a primeira vez que entrei no prédio que sempre admirava quando ia para Capoeiras”, lembra.

A trajetória de Erika no ISD começou em novembro de 2021. À época, ela já era formada em Serviço Social e possuía experiência profissional, tendo atuado por dois anos no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Parnamirim, município vizinho a Macaíba. No Anita, ainda como recepcionista, teve contato direto com a Residência Multiprofissional no Cuidado à Pessoa com Deficiência e passou a cogitar a possibilidade de ingressar na pós-graduação. Após duas tentativas, nos processos seletivos de 2022 e 2023, conquistou uma vaga em 2024, na 7ª turma do programa.

“Entrei na residência na hora certa. Os dois anos que passei na recepção do Anita foram muito importantes para entender o fluxo do serviço e as demandas reais dos pacientes. Muitas pessoas ainda não sabem quais são os seus direitos e acham que o acesso aos serviços básicos é um favor. Na recepção, tive uma visão diferente daquela que aprendemos na faculdade e levei essa bagagem para a residência”.

Durante os dois anos de formação, Erika integrou grupos e linhas de cuidado de diferentes especialidades, participou de eventos científicos e realizou vivências externas, incluindo estágios fora do ISD. “Um dos meus estágios foi no Hospital Regional Alfredo Mesquita, em Macaíba. Sempre tive receio de trabalhar em hospital como assistente social, mas o estágio e a preparação que tive na residência me proporcionaram um olhar mais humanizado para essa experiência”, afirma.

Vínculos mais fortes com Capoeiras

Às vésperas de concluir a Residência Multiprofissional, Erika não consegue imaginar o futuro distante da Comunidade de Capoeiras. Ela pretende continuar atuando no quilombo, especialmente na difusão de informações sobre direitos sociais básicos e no fortalecimento de seu vínculo ancestral com o território.

Embora tenha crescido visitando a comunidade, a assistente social lembra que sua relação de pertencimento com Capoeiras se consolidou apenas na fase adulta. “Agora é a hora de estreitar os laços e estar mais próxima dos meus”.

Além disso, Erika espera ser referência para crianças e adolescentes quilombolas, mostrando que, apesar das muitas barreiras históricas que ainda existem, é possível construir novos caminhos por meio da educação. Ela é uma das primeiras mulheres quilombolas de Capoeiras a concluir uma pós-graduação na área da saúde, e a primeira a ser formada pelo Instituto Santos Dumont.

Da comunidade quilombola de Capoeiras ao encerramento de uma residência em saúde, a trajetória de Erika Santos mostra que o acesso à educação e às políticas públicas pode reescrever destinos sem apagar o passado. Ao reconhecer suas raízes, Erika transforma a própria história em ferramenta de cuidado, conhecimento e pertencimento pessoal à comunidade de onde veio.

Residente Erika Santos na Comunidade Quilombola de Capoeiras – Foto: Cedida

Sobre a Residência Multiprofissional do ISD

Ofertada pelo ISD desde 2018, a RESPCD tem como principais campos de prática o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi (Anita) e o Centro Especializado em Reabilitação (CER IV), cujas atividades também se estendem ao Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS). A RESPCD é voltada para profissionais de Fisioterapia, Fonoaudiologia, Psicologia, Serviço Social, Terapia Ocupacional e Educação Física (bacharelado).

O ISD é referência em saúde materno-infantil, na atenção à pessoa com deficiência e nos campos da neurociência e da neuroengenharia. Seu atendimento é 100% oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e abrange condições como Parkinson, Transtorno do Espectro Autista (TEA), lesão medular, microcefalia, deficiência auditiva, deficiência visual, prematuridade e bexiga neurogênica, entre outras.

Sobre o ISD

O Instituto Santos Dumont (ISD) é uma Organização Social do Poder Executivo Federal, supervisionada pelo Ministério da Educação, com interveniência do Ministério do Esporte. Engloba o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi, ambos em Macaíba. A missão do ISD é promover educação para a vida, formando cidadãos por meio de ações integradas de ensino, pesquisa e extensão, além de contribuir para a transformação mais justa e humana da realidade social brasileira.

Assessoria de Comunicação
comunicacao@isd.org.br
(84) 99416-1880

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